Gritavam os ventos,
pelas montanhas se arrastavam.
Gritava o tempo,
as flores, as carruagens.
Gritavam tão alto
e tão ensurdecedor
que quieta ficava
no sentir da minha dor.
Gritavam as palavras
que nunca falei.
Caiam as lágrimas
que sempre ocultei.
Gritava o silêncio,
os copos, as taças.
Gritavam as portas
antes abertas, agora fechadas.
Gritava o caminho
por onde voltei.
Gritavam os versos
que não sussurrei.
Cresciam montanhas
no ranger dos meus dentes
e as notas caiam
espalhadas no batente
que não pude subir.
Faltava pouco...
faltava muito!
Uma passarela
uma aquarela que não pude pintar.
E agora, os caminhos fechados,
errava até o penteado
com o qual queria encantar.
E por tudo
gritavam os dedos,
nos cabelos entrelaçados
que aquilo a que se propunham
não seria alcançado
Olhei pros pés,
agora cortados,
que o salto de cristal
havia se quebrado.
Já não era Cinderela
não era a Bela da Fera
não era a Aurora
no leito do sono.
E com tantos "nãos"
era só a Branca de Neve
perdida na floresta
sem a casa de um anão.
E eram tantos gritos -que o meu eu guardava -
de tantas palavras...
que se fecham os livros
do meu conto de fadas
Porque o Príncipe...
recusou a minha mão.
Léa Mont'Alverne
01.07.13